Conceição Evaristo será a autora homenageada do 3º Flipetrópolis, marcado para 12 a 15 de novembro de 2026, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Conceição Evaristo foi doméstica, tornou-se professora e doutora e terá sua história celebrada em festival em mês que comemora seus 80 anos

Autora será celebrada em festival gratuito em Petrópolis; sua trajetória passa pelo magistério, pelo doutorado e pela criação do conceito de escrevivência.

Conceição Evaristo será a autora homenageada do 3º Flipetrópolis, marcado para 12 a 15 de novembro de 2026, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. O reconhecimento acontece no mês em que a escritora completa 80 anos, em 29 de novembro, após construir uma trajetória que atravessa trabalho doméstico, educação pública e produção literária.

Nascida em Belo Horizonte, a romancista, contista e poeta trabalhou como empregada doméstica enquanto buscava concluir sua formação escolar. Em 1971, terminou os estudos secundários no Instituto de Educação de Minas Gerais. Depois, tornou-se professora, pesquisadora e autora de livros que colocam experiências de mulheres negras no centro da narrativa.

Conhecer esse percurso ajuda a compreender tanto as condições em que sua escrita se desenvolveu quanto as perguntas presentes em sua obra: quem pode contar uma história, quais memórias são preservadas e que vidas encontram espaço nos livros.

A formação começou entre o trabalho e os estudos

Conceição cresceu em uma família pobre e numerosa, na periferia de Belo Horizonte. Sua mãe, Joana Josefina, teve participação na aproximação com a palavra escrita e guardava cadernos com os próprios registros. A convivência familiar também ofereceu histórias e experiências que acompanhariam a futura autora.

A conclusão do curso normal, voltado à formação de professores, abriu uma possibilidade profissional. Em 1973, Conceição mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no magistério público. O trabalho como professora passou a fazer parte de uma vida em que estudar e escrever continuaram presentes.

Essa sequência permite olhar sua trajetória com atenção às condições concretas: o sustento, a escolarização e o acesso a uma profissão. Também ajuda a discutir como oportunidades educacionais podem ampliar os caminhos disponíveis para mulheres que começam a trabalhar cedo.

Da sala de aula ao doutorado em literatura

A formação de Conceição Evaristo avançou pela universidade. Ela se graduou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e concluiu doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense.

Na pesquisa acadêmica, dedicou-se à produção literária negra. Sua dissertação recebeu o título Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. No doutorado, estudou relações entre obras de autores afro-brasileiros e do poeta angolano Agostinho Neto.

Esses estudos acrescentam uma dimensão essencial ao reconhecimento da escritora. Além de criar personagens, poemas e enredos, Conceição desenvolveu reflexões sobre a literatura, suas tradições e os espaços ocupados por autores negros. Para quem estuda sua obra, conhecer essa atuação intelectual amplia a leitura para além dos acontecimentos biográficos.

A publicação chegou depois de um longo percurso

Sua estreia em publicação ocorreu em 1990, na série Cadernos Negros, ligada ao grupo Quilombhoje. Em 2003, lançou o romance Ponciá Vicêncio. Três anos depois, chegou aos leitores Becos da memória.

Os marcos revelam diferentes etapas de uma carreira literária: escrever, encontrar espaços de circulação e publicar livros. Para leitores interessados em começar a escrever, essa distinção é útil. A data da estreia editorial registra a chegada de textos ao público; a formação de uma autora envolve experiências e trabalho anteriores.

O reconhecimento também alcançou os contos. Olhos d’água recebeu o Prêmio Jabuti em 2015, e Conceição foi homenageada como Personalidade Literária pelo prêmio em 2019. Sua produção passou a circular em traduções e a integrar atividades de formação de leitores.

O que a escrevivência acrescenta à leitura

Escrevivência é um conceito desenvolvido por Conceição Evaristo que aproxima escrita, experiência e memória coletiva. Em sua produção, lembranças, cotidiano e vivências da população negra alimentam a criação de romances, contos e poemas.

Uma forma de explorar essa relação durante a leitura é observar quem narra, quais lembranças aparecem e como elas interferem nas escolhas das personagens. Também vale perceber o trabalho com a linguagem: repetições, imagens e mudanças no tempo podem construir sentidos que ultrapassam a sequência dos acontecimentos.

Para experimentar esse olhar, o leitor pode consultar a análise de Canção para ninar menino grande, que apresenta as relações entre as personagens e a organização narrativa. O exercício é acompanhar como diferentes perspectivas participam da construção da história.

A homenagem terá encontro com Sueli Carneiro

Segundo a programação oficial do Flipetrópolis, Conceição participará de uma conversa com a filósofa Sueli Carneiro em 14 de novembro, às 20h, no Palácio de Cristal. A mediação será de Calila das Mercês.

O encontro abordará literatura, amizade, memória e experiências de mulheres negras. O festival terá entrada gratuita e transmissão pelo canal @flipetropolis no YouTube, permitindo acompanhar a programação também a distância.

Para aproveitar a conversa, uma possibilidade é ler previamente um conto ou poema da autora e anotar uma pergunta sobre a voz narrativa ou as memórias presentes no texto.

Qual obra de Conceição Evaristo você já leu ou pretende conhecer primeiro?

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