Em Meridiana, a conquista de uma vida mais confortável convive com conflitos de pertencimento, memória e relações familiares ao longo de três gerações.
Eliana Alves Cruz venceu a categoria Romance Literário do Prêmio Jabuti 2026 com Meridiana. A premiação aconteceu em 27 de outubro, na Sala São Paulo, e reconheceu uma narrativa sobre as mudanças vividas por uma família negra que melhora de condição econômica.
O ponto de partida é um desejo compartilhado por muitas famílias brasileiras: deixar a precariedade para trás e oferecer aos filhos oportunidades melhores. Na história, essa conquista abre espaço para perguntas sobre reconhecimento, vínculos e o lugar que cada pessoa consegue ocupar.
Para quem procura uma próxima leitura, o livro oferece uma entrada na produção da escritora e em uma discussão próxima do cotidiano: o que acontece quando a mudança de endereço e de renda também transforma as relações com o mundo?
Quem é Eliana Alves Cruz, vencedora do Jabuti
Jornalista, escritora e roteirista, Eliana Alves Cruz já havia recebido o Jabuti em 2022, na categoria Contos, com A vestida. Naquele mesmo ano, publicou o romance Solitária, também pela Companhia das Letras. A conquista de 2026 acrescenta, portanto, um reconhecimento em outro gênero à sua trajetória.
Sua atuação também passa pelo audiovisual: integrou a equipe de roteiristas da série Anderson Spider Silva, indicada ao International Emmy Awards de 2024. São diferentes maneiras de trabalhar personagens, experiências e conflitos por meio da narrativa.

Ao comentar a vitória em entrevista à Agência Brasil, a autora relacionou o reconhecimento à sua família, aos ancestrais e às escritoras que admira. A celebração foi apresentada como parte de uma trajetória compartilhada.
Sobre o que é Meridiana
Aurora e Ernesto desejam sair da favela e construir uma vida de classe média. O projeto envolve os filhos, para quem esperam um futuro de prosperidade e respeito. Essa passagem organiza a premissa do romance, publicado em outubro de 2025.
A família chega a uma condição econômica diferente, mas cada integrante experimenta a mudança à sua maneira. O livro acompanha três gerações e distribui a narrativa entre diferentes vozes, permitindo que os personagens apresentem suas próprias perspectivas.
Um detalhe aproxima a história do universo de quem estuda em busca de estabilidade: Ernesto enxerga no concurso público uma possibilidade de superar dificuldades sociais e financeiras. Sua expectativa liga trabalho, segurança e projeto familiar.
Esse ponto de partida permite acompanhar a obra sem antecipar o desfecho. O interesse está em observar como um objetivo aparentemente comum ganha sentidos diferentes para quem o constrói e para quem cresce cercado por suas consequências.
Melhorar de vida também muda a sensação de pertencimento
Na explicação da autora sobre o romance, a entrada em uma nova classe média traz uma dificuldade de localização: os personagens se afastam da condição anterior enquanto procuram reconhecer o novo espaço como seu. A ideia de casa passa a envolver acolhimento e identidade.
Renda, pertencimento e reconhecimento são dimensões diferentes dessa experiência. A primeira diz respeito às condições materiais; as outras envolvem relações, expectativas e a maneira como alguém é recebido socialmente.
Essa distinção oferece uma chave de leitura para os conflitos do livro. Ao acompanhar a família, o leitor pode observar quais mudanças ampliam possibilidades e quais situações continuam produzindo desconforto.
O racismo integra esse quadro, atravessando a experiência de ascensão social apresentada na narrativa. Afetos, memória e relações familiares ajudam a dar forma particular a uma discussão que poderia permanecer abstrata.
As diferentes vozes ajudam a discutir as escolhas da família
A alternância de pontos de vista oferece um caminho para conversar sobre a construção do romance. Como observa a leitura crítica publicada no portal Literafro, da UFMG, os relatos permitem compreender as motivações dos personagens, inclusive quando suas decisões provocam discordância.
Para um clube de leitura, uma proposta é escolher uma passagem e perguntar: o que esse personagem considera uma conquista? O que teme perder? Que expectativa deposita nos outros?
As respostas devem partir de palavras e acontecimentos do texto. Assim, a conversa ganha precisão e acolhe interpretações diferentes sem depender apenas de impressões gerais.
Também vale registrar quando uma nova voz modifica a avaliação feita anteriormente. Esse exercício ajuda a perceber como a organização narrativa participa da produção de sentido.
Como levar a leitura para uma conversa ou atividade
Professores e mediadores podem propor um registro breve com três elementos: a expectativa de um personagem, uma passagem que a sustente e uma pergunta para o grupo.
Outra possibilidade é discutir o significado de sucesso a partir das prioridades identificadas durante a leitura. Segurança financeira, autonomia e reconhecimento podem servir como perguntas iniciais, deixando que o próprio texto conduza as respostas.
Para começar, leia os primeiros capítulos e anote o que cada voz entende por melhorar de vida. Leve essas diferenças ao encontro seguinte: elas oferecem um ponto concreto para conversar sobre a família de Meridiana e sobre as escolhas de Eliana Alves Cruz ao contá-la.
Professora formada em Letras – Português/Inglês pela UEPG, pós-graduada em Psicopedagogia Escolar e Arte na Educação pela FAPI e em Educação Especial pela Facuminas. Atua com produção de conteúdo, revisão, redação SEO e escrita para web desde 2018.





