O que registrar no relatório de AEE? Confira uma estrutura prática e um exemplo comentado com barreiras, apoios e resultados observados.
O relatório de atendimento educacional especializado registra os apoios oferecidos ao estudante, as barreiras encontradas e os resultados observados em determinado período. Para orientar a continuidade do trabalho, precisa mostrar o que foi realizado, em quais condições o estudante participou e quais ajustes ainda são necessários.
Esse registro se diferencia do plano de AEE, que organiza as ações pedagógicas, e do laudo clínico, produzido no campo da saúde. A seguir, você encontra uma estrutura de escrita e um exemplo fictício preenchido, com comentários para adaptar o documento à realidade do estudante e de sua turma.
Relatório de AEE, plano de atendimento e laudo clínico: qual é a diferença?
Os documentos têm funções diferentes, embora possam contribuir para compreender as necessidades de apoio de um mesmo estudante.
| Documento | Função | O que apresenta |
|---|---|---|
| Registro de cada atendimento | Documentar uma sessão ou ação realizada. | Data, objetivo trabalhado, recurso utilizado, participação e observações para o próximo encontro. |
| Relatório de acompanhamento do AEE | Analisar o trabalho desenvolvido durante um período. | Síntese das intervenções, evidências de participação e aprendizagem, barreiras persistentes e encaminhamentos pedagógicos. |
| Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) | Registrar o estudo de caso e organizar recursos e apoios de acessibilidade. | Materiais, recursos, necessidades de tecnologia assistiva e outros apoios, conforme o estudo de caso e as normas aplicáveis. |
| Plano Educacional Individualizado (PEI) | Planejar a acessibilização curricular e seu acompanhamento. | Articulação entre AEE e classe comum, medidas pedagógicas e avaliativas, monitoramento e devolutivas à família. |
| Laudo clínico | Documentar avaliação e conclusões no campo da saúde. | Informações clínicas, conforme a finalidade do documento e a competência do profissional responsável. |
A distinção entre PAEE e PEI encontra apoio nos artigos 10 e 11 da Portaria MEC nº 421/2026. Já a separação entre registro de sessão e relatório de período, apresentada acima, é uma proposta de organização do trabalho pedagógico. Confira os formulários e as orientações adotados pela sua rede.
Um relatório pode subsidiar a revisão dos planos, mas uma síntese das atividades realizadas não contempla, por si só, todos os elementos exigidos para o planejamento.
O que observar antes de escrever o relatório
O foco do AEE envolve acessibilidade, participação e aprendizagem. Conforme a orientação do Inep sobre o atendimento especializado, ele complementa a escolarização de estudantes com deficiência e transtorno do espectro autista e suplementa a de estudantes com altas habilidades ou superdotação. A matrícula no atendimento não substitui a matrícula e a frequência na classe comum.
Por isso, descrever apenas jogos, fichas ou exercícios utilizados deixa uma lacuna: qual barreira esses recursos ajudaram a enfrentar? Um jogo pode integrar o atendimento, mas o relatório precisa explicar sua finalidade e a resposta observada.
Antes de redigir, reúna os registros das sessões, os objetivos dos planos, produções do estudante e informações obtidas na articulação com a classe comum. Identifique a origem de cada informação: observação do professor do AEE, registro da professora regente ou relato familiar.
O artigo 11 do Decreto nº 12.686/2025, alterado pelo Decreto nº 12.773/2025, prevê o estudo de caso com identificação de barreiras, potencialidades e demandas de apoio. Também estabelece que a oferta do AEE não pode depender da apresentação de diagnóstico ou documento de saúde. O Inep explica os registros pedagógicos e administrativos desse processo.
Uma dificuldade escolar isolada não permite concluir um diagnóstico nem identificar automaticamente o estudante como público da educação especial. O relatório descreve o acompanhamento pedagógico e os apoios necessários, sem atribuir condições clínicas.
Estrutura para um relatório de atendimento educacional especializado
O roteiro abaixo é uma sugestão editorial, e não um formulário oficial. Ajuste os campos às orientações da escola e à finalidade do documento.
- Identificação e período: estudante, turma, escola, profissionais responsáveis e intervalo analisado.
- Contexto do acompanhamento: organização dos atendimentos, encontros realizados e fontes de informação utilizadas.
- Potencialidades e interesses: formas de comunicação, escolhas e situações que favorecem o envolvimento.
- Barreiras identificadas: condições dos materiais, da comunicação, do ambiente ou das propostas que dificultaram a participação.
- Objetivos acompanhados: prioridades dos planos sobre as quais o relatório apresentará evidências.
- Intervenções e recursos: estratégias efetivamente utilizadas e condições de uso.
- Resultados observados: mudanças, estabilidade ou variações, com indicação do apoio necessário.
- Articulação e continuidade: diálogo com estudante, família e equipe, ajustes propostos, responsáveis e momento de revisão.
Registre a frequência com precisão. Se houve poucos encontros, explicite que o período oferece evidências limitadas. Interrupções na oferta do serviço também precisam aparecer quando forem relevantes para interpretar o acompanhamento.
Exemplo preenchido de relatório de AEE
Exemplo autoral inteiramente fictício. Nomes, escola, datas, quantidades e situações foram criados para demonstrar a escrita. O texto não corresponde a um estudante real nem constitui modelo oficial.
Identificação e contexto
Estudante: Luana Martins, nome fictício. Turma: 3º ano do Ensino Fundamental. Escola: Escola Horizonte, fictícia. Período analisado: agosto e setembro de 2026. Responsável pelo registro: professora de AEE Helena Costa, personagem fictícia. Data de elaboração: 2 de outubro de 2026.
No período, foram previstos oito encontros individuais e realizados sete. Um encontro foi cancelado pela escola. O acompanhamento utilizou registros das sessões, produções da estudante, duas observações na classe comum e uma reunião com a professora regente. A família participou de uma devolutiva ao final do período.
Este relatório acompanha objetivos do PAEE e do PEI relativos ao acesso às instruções, à comunicação de pedidos de ajuda e à participação nas atividades compartilhadas.
Potencialidades e barreiras observadas
Luana demonstrou interesse por histórias com animais, escolheu livros entre as opções apresentadas e participou de propostas em dupla quando teve acesso à sequência da atividade. Comunicou preferências por fala, gestos e indicação de imagens.
Nas observações iniciais, instruções orais com várias ações seguidas exigiram retomadas individuais. Materiais com muitas informações na mesma página dificultaram a localização da etapa a realizar. Essas condições orientaram a organização dos apoios.
Estratégias e recursos utilizados
Foram utilizados cartões com a sequência das atividades, instruções apresentadas por etapas e fichas com maior espaçamento entre os itens. O cartão “preciso de ajuda” foi apresentado como opção adicional de comunicação, junto às formas já utilizadas pela estudante.
A professora de AEE e a regente combinaram o uso da mesma sequência visual em duas propostas semanais da classe comum. Luana participou da escolha das imagens e indicou preferência por cartões com fotografias dos materiais escolares.
Resultados e necessidades de continuidade
Nos dois primeiros encontros, Luana precisou de orientação verbal individual em cada mudança de etapa. Nos três últimos, consultou a sequência visual e iniciou a etapa seguinte sem nova orientação verbal em quatro de seis transições registradas. Nas outras duas, precisou de uma indicação verbal breve. O recurso visual permaneceu disponível em todas essas situações.
Nos dois últimos encontros, solicitou ajuda por fala ou indicação do cartão em três das quatro situações registradas em que encontrou uma dificuldade. Em uma situação, afastou o material e retomou a proposta após mediação da professora.
Na segunda observação na classe comum, utilizou a sequência visual após indicação inicial da regente e participou de uma atividade em dupla. Essa observação ainda é insuficiente para afirmar uso autônomo do recurso em outras situações escolares.
Em uma proposta com maior volume de informações na página, precisou que a professora destacasse o item a realizar. Recomenda-se manter a organização visual dos materiais e acompanhar sua resposta em diferentes componentes curriculares.
Articulação e próximos passos
Na devolutiva, a família relatou que Luana costuma pedir ajuda em atividades domésticas conhecidas. Essa informação foi registrada como relato familiar, sem equivaler a uma observação realizada pela escola.
Para o próximo período, a professora de AEE e a regente combinaram manter os recursos, registrar seu uso em atividades de leitura e matemática e observar a participação em pequenos grupos. Os registros indicarão se houve iniciativa da estudante, indicação verbal ou demonstração do adulto. A equipe revisará essas informações na reunião pedagógica de novembro.
Comentários sobre o exemplo: o que torna o registro útil?
A barreira aparece ligada ao contexto. O exemplo descreve instruções extensas e páginas carregadas, oferecendo à equipe condições concretas sobre as quais atuar.
O resultado informa o apoio utilizado. Iniciar uma etapa com uma sequência visual disponível é diferente de iniciá-la após orientação verbal. Ambos os registros ajudam a avaliar a participação. O uso de um recurso de acessibilidade pode integrar a autonomia do estudante; sua retirada não precisa ser tratada como objetivo.
As evidências têm limites explícitos. Uma observação na classe comum não comprova que a estudante utilizará o recurso em todos os ambientes. A continuidade proposta busca justamente acompanhar essa possibilidade.
Os próximos passos indicam uma ação verificável. Em vez de encerrar com “continuar estimulando”, o relatório informa quais recursos serão mantidos, em quais atividades e quando a equipe analisará os registros.
As contagens do exemplo servem para mostrar uma possibilidade de documentação. Use números apenas quando houver registros que os sustentem. Observações qualitativas também são úteis quando descrevem situações concretas.
Como adaptar o relatório ao estudante e à turma
A organização do documento pode ser semelhante para diferentes estudantes. Já os objetivos, as evidências e as conclusões precisam corresponder ao acompanhamento individual.
Comece pelas situações reais da turma: leitura compartilhada, experimentos, brincadeiras, produção de textos ou trabalho em grupo. Identifique o que o estudante precisa para participar e como o AEE pode contribuir para organizar esse acesso.
- Na Educação Infantil: descreva participação nas brincadeiras, comunicação de escolhas, exploração de materiais e apoios nas rotinas.
- No Ensino Fundamental: relacione os recursos ao acesso às propostas curriculares e à interação com os colegas.
- No Ensino Médio e na EJA: considere materiais adequados à faixa etária, participação nas decisões e demandas concretas das atividades escolares.
- Em situações de altas habilidades ou superdotação: registre interesses investigativos, aprofundamentos, enriquecimento e respostas aos desafios oferecidos.
Esses recortes são sugestões de observação. Se o atendimento ocorrer em grupo, descreva a participação de cada estudante e os apoios utilizados. A experiência coletiva não elimina a necessidade de acompanhamento individualizado.
Também é possível ajustar a redação para torná-la mais precisa. Em lugar de “não acompanha a turma”, registre qual proposta foi apresentada, quais condições dificultaram o acesso e o que aconteceu com o apoio oferecido. Evite prever limites permanentes de aprendizagem a partir de um período de observação.
Como revisar e compartilhar o documento
Antes de concluir, confira se o relatório permite que outro profissional compreenda o trabalho realizado e dê continuidade a ele. Verifique se as conclusões correspondem às evidências e se observações, relatos de terceiros e recomendações estão identificados.
Como cuidado de elaboração, inclua apenas informações pessoais necessárias à finalidade pedagógica e utilize os canais institucionais de compartilhamento. Evite reproduzir integralmente documentos de saúde ou divulgar registros identificáveis em grupos abertos.
Finalize com a identificação dos responsáveis e as validações previstas pela rede. Defina também o próximo momento de análise: o relatório se torna útil quando suas informações orientam decisões sobre materiais, comunicação, participação e acesso ao currículo.
Professora formada em Letras – Português/Inglês pela UEPG, pós-graduada em Psicopedagogia Escolar e Arte na Educação pela FAPI e em Educação Especial pela Facuminas. Atua com produção de conteúdo, revisão, redação SEO e escrita para web desde 2018.





