Redação nota 0 na Fuvest

Redação nota 0 na Fuvest: aluno usou “grandiloquência condoreira”, mas banca apontou problema com o tema

Uma redação nota 0 na Fuvest ganhou repercussão em março de 2026 pelo uso de palavras pouco comuns e referências filosóficas. O autor, Luis Henrique Etechebere Bessa, tinha 18 anos na época e disputava uma vaga em Direito na Universidade de São Paulo (USP). Entre as expressões empregadas estavam “grandiloquência condoreira” e “sofrer recôndito”.

O vocabulário virou o centro da discussão pública, mas a justificativa apresentada pela Fuvest foi outra: o texto não desenvolveu adequadamente o tema solicitado. Professores consultados pelo G1 avaliaram que o excesso de rebuscamento comprometeu a clareza dos argumentos.

O caso permite discutir uma dúvida que aparece na preparação para vestibulares: até que ponto sofisticar a linguagem melhora uma redação? Para responder, é preciso observar o que foi pedido na prova, o posicionamento da banca e a contestação do estudante.

O que aconteceu com a redação que recebeu zero na Fuvest?

Luis participou da segunda fase da Fuvest 2026, processo seletivo para ingresso na USP. Após receber zero na redação, questionou a avaliação e levou o caso à Justiça. Na entrevista publicada pelo g1 em 27 de março de 2026, afirmou que considerava genérica a resposta recebida ao pedir esclarecimentos sobre a eliminação.

A redação circulou nas redes sociais e chamou atenção pela concentração de termos incomuns. O Guia do Estudante chegou a publicar um glossário para explicar parte do vocabulário utilizado.

Entretanto, conhecer o significado de cada palavra não resolve, sozinho, a leitura de um texto. Também é necessário compreender como as frases se relacionam, qual ideia está sendo defendida e de que maneira os argumentos respondem à proposta.

Essa é a distinção que interessa a quem está estudando: um vocabulário amplo oferece possibilidades de expressão, mas cada escolha precisa contribuir para comunicar o raciocínio.

Qual era o tema da prova e o que precisava ser discutido?

Na proposta dissertativo-argumentativa da Fuvest 2026, o candidato deveria apresentar um ponto de vista sobre o perdão como ato que pode ser condicionado ou limitado. O documento oficial com a abordagem esperada explica que a discussão poderia explorar condições para perdoar ou limites atribuídos ao perdão.

Isso abre caminhos diferentes de argumentação. Um candidato poderia, por exemplo, discutir se o arrependimento é uma condição legítima para perdoar. Outro poderia analisar por que uma pessoa decide não conceder perdão diante de determinada violência.

Esses são exemplos de possibilidades de reflexão, não respostas obrigatórias nem modelos oficiais.

O cuidado está em desenvolver a relação proposta. Mencionar o perdão em algumas frases e dedicar o restante do texto a conceitos que não esclarecem essa discussão dificulta a identificação de um posicionamento.

Antes de escrever, ajuda formular uma pergunta: “Qual ideia sobre os limites ou as condições do perdão meu texto vai defender?”. Entender o que é tese na redação permite transformar essa resposta em uma direção para os parágrafos seguintes.

A redação recebeu nota 0 por usar palavras difíceis?

A justificativa atribuída à Fuvest foi a falta de abordagem e desenvolvimento do tema. Segundo a manifestação reproduzida na reportagem do g1, a banca não encontrou elementos suficientes que demonstrassem a compreensão da proposta e sua progressão no texto.

Já o vocabulário foi um dos aspectos examinados pelos professores ouvidos pela reportagem. Marina Rocha, professora de redação, apontou construções sintáticas confusas. Sérgio Paganim, coordenador de Redação do Anglo, avaliou que as referências e os conceitos apresentados não sustentavam um posicionamento explícito sobre o recorte solicitado.

Portanto, resumir o episódio como uma punição por conhecer palavras incomuns elimina uma parte essencial da explicação.

O aprendizado para a escrita está na função das palavras. Um termo específico pode tornar uma ideia mais precisa. Porém, se ele deixa a frase obscura ou é empregado sem domínio do significado, convém reformular.

Também não é necessário abandonar conceitos filosóficos ou referências literárias. É preciso explicar o que eles acrescentam à discussão.

O que o estudante contestou e qual foi a decisão judicial?

Na ação, o candidato sustentou que havia desenvolvido o tema e questionou a fundamentação da nota zero. Segundo a cobertura do Migalhas, portal de notícias jurídicas, o pedido incluía reavaliação por outra banca e anulação da nota atribuída.

Em decisão de 30 de janeiro de 2026, o juiz Antonio Augusto Galvão de França, da 4ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, negou a liminar, isto é, o pedido de medida urgente. O documento registra que eventual erro de correção ou falta de detalhamento dos critérios não produziria automaticamente direito a nova avaliação ou matrícula provisória.

A decisão judicial disponibilizada pelo Migalhas determinou a continuidade do processo, com solicitação de informações às autoridades e posterior manifestação do Ministério Público. Esse documento trata da liminar e não equivale a uma sentença final sobre toda a ação.

Como escrever com precisão sem complicar o argumento

Um exercício útil é observar se a frase comunica uma ideia que pode ser explicada. Compare os exemplos abaixo, criados para este conteúdo e sem reproduzir a redação do candidato:

FormulaçãoO que acontece na leitura
“A concessão do perdão exige uma ressignificação multifatorial das disposições subjetivas.”A frase deixa pouco claro quais fatores estão sendo discutidos e como interferem no perdão.
“Uma pessoa pode condicionar o perdão ao reconhecimento do dano e ao compromisso de não repetir a agressão.”A frase identifica uma condição e permite desenvolver suas razões e consequências.

A segunda formulação oferece pontos concretos para o parágrafo: por que reconhecer o dano importa? O compromisso de mudança é suficiente? Quem sofreu a agressão tem liberdade para recusar o perdão?

Responder a essas perguntas faz o argumento avançar. Para praticar, o conteúdo sobre como achar argumentos para redação ajuda a relacionar ideias ao tema escolhido.

Faça o mesmo com as referências. Depois de mencionar um autor, uma obra ou um conceito, explique sua contribuição. Se a referência puder ser retirada sem alterar o raciocínio, talvez ela esteja apenas ocupando espaço.

O que revisar antes de entregar uma redação

Ao terminar um exercício, faça uma leitura concentrada no sentido do texto:

  • Consigo identificar qual ideia estou defendendo?
  • Cada parágrafo desenvolve uma parte da discussão solicitada?
  • Expliquei a relação entre minhas referências e o argumento?
  • Usei algum termo cujo significado não domino?
  • Há frases que parecem elaboradas, mas não acrescentam uma informação compreensível?
  • A conclusão decorre do que desenvolvi?

Uma prática simples é explicar oralmente o argumento de cada parágrafo. Se você consegue dizer com clareza o que quis defender, mas essa ideia não aparece na página, reescreva o trecho.

O caso da Fuvest pode servir como ponto de partida para esse treino, sem transformar o estudante em alvo de ridicularização. Escolha um parágrafo seu, retire os excessos e confira se a ideia ficou mais precisa. Depois, verifique se ela responde ao que a proposta realmente pediu.

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