ensino médio pelo Encceja

Aos 58 anos, mulher que concluiu ensino médio pelo Encceja começa faculdade de Direito

Aos 58 anos, Nadijane Macedo realizou um sonho que havia adiado durante décadas: começar uma faculdade de Direito. Moradora de Salvador, na Bahia, ela concluiu o ensino médio pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) em 2018 e, oito anos depois, conquistou uma vaga na Universidade Salvador (Unifacs), com uma bolsa que cobre 80% da mensalidade.

A conquista aconteceu no início de 2026, depois de uma trajetória marcada por responsabilidades familiares, perdas e pela busca por justiça. Durante boa parte da vida, Nadijane colocou as necessidades de outras pessoas à frente dos próprios projetos.

Sua história foi apresentada em uma reportagem da Revista Afirmativa, publicada em 4 de maio de 2026, que reuniu relatos de brasileiros que chegaram ao ensino superior depois dos 50 anos.

O sonho de fazer faculdade começou na juventude, mas precisou esperar

Nadijane sempre teve interesse pelas áreas de Direito e Economia. Ainda jovem, imaginava como seria frequentar uma universidade e construir uma carreira em uma dessas profissões.

Entretanto, aos 21 anos, perdeu a mãe e assumiu responsabilidades com os cuidados das irmãs. Posteriormente, vieram o casamento, os filhos e as tarefas domésticas.

Com tantas obrigações, a possibilidade de iniciar uma graduação foi sendo adiada. Embora o desejo de estudar continuasse presente, outras necessidades acabavam recebendo prioridade.

Ao falar sobre esse período à Revista Afirmativa, Nadijane reconheceu que passou muitos anos abrindo mão de seus próprios desejos para atender aos de outras pessoas.

Essa experiência ajuda a compreender por que o ingresso na universidade, décadas depois, representa uma mudança importante em sua trajetória. A faculdade passou a ocupar um espaço que ela desejava desde a juventude.

A perda do filho e a busca por justiça fortaleceram sua ligação com o Direito

Em 2008, Nadijane enfrentou a morte do filho mais velho, Alexandre, aos 17 anos, vítima da violência policial em Salvador. O adolescente também tinha o sonho de estudar Direito e seguir carreira na área jurídica.

A perda transformou profundamente a vida da família. Nadijane passou a acompanhar audiências, julgamentos e discussões relacionadas aos direitos das vítimas e de seus familiares.

Nadijane Macedo realizou um sonho que havia adiado durante décadas
Nadijane Macedo realizou um sonho que havia adiado durante décadas (Créditos: Jamile Novaes)

O contato com o sistema de Justiça fortaleceu seu interesse por uma área que já fazia parte de seus planos desde a juventude.

Em 2018, dez anos após a morte de Alexandre, o caso chegou a julgamento pelo Tribunal do Júri. Naquele mesmo ano, Nadijane tomou outra decisão importante: voltar a investir na própria formação escolar.

Atualmente, ela também participa da articulação de mães e familiares de vítimas da violência do Estado, em uma atuação que aproxima sua experiência pessoal das questões jurídicas que deseja estudar.

Em 2018, Nadijane concluiu o ensino médio pelo Encceja

O retorno aos estudos ganhou um resultado concreto em 2018. Nadijane conseguiu a certificação de conclusão do ensino médio por meio do Encceja, exame nacional destinado a jovens e adultos que não terminaram a educação básica na idade habitual.

Com o certificado, passou a atender a um dos requisitos necessários para ingressar no ensino superior: a conclusão do ensino médio.

O documento não significava uma vaga automática na universidade. Ainda seria necessário passar por uma forma de seleção e encontrar condições para custear a graduação.

Mesmo assim, a certificação representou uma etapa decisiva. Depois de tantos anos afastada da educação formal, Nadijane havia conquistado o documento escolar necessário para continuar sua formação.

A trajetória mostra uma possibilidade importante para adultos que interromperam os estudos: a certificação pelo Encceja pode permitir a continuidade da vida acadêmica, inclusive em cursos superiores, desde que os demais requisitos de ingresso sejam atendidos.

Aos 58 anos, ela conquistou bolsa de 80% para cursar Direito

No início de 2026, Nadijane ingressou no curso de Direito da Universidade Salvador (Unifacs). A oportunidade surgiu por meio do programa Educa Mais Brasil, com uma bolsa que cobre 80% do valor da mensalidade.

O desconto tornou mais acessível a realização de um projeto que havia acompanhado a estudante por décadas.

A adaptação à universidade também trouxe desafios. Na reportagem, Nadijane relatou dificuldades relacionadas à saúde e ao retorno à sala de aula depois de aproximadamente 40 anos.

Apesar disso, ela demonstrou entusiasmo com a nova rotina acadêmica. Contou que gosta de chegar cedo às aulas e que vem aproveitando as oportunidades de aprendizado.

A participação na vida universitária já ultrapassou as atividades de estudo. Nadijane foi eleita vice-líder de sua turma, assumindo uma função de representação entre os colegas.

O ingresso no curso é uma conquista importante, mas ainda representa o início de sua formação em Direito. Entre seus planos estão a conclusão da graduação, a realização de um mestrado e a participação em concursos públicos. Ela também considera a possibilidade de construir uma carreira na Defensoria Pública.

Quem concluiu o ensino médio pelo Encceja pode fazer faculdade?

Sim. O certificado de conclusão do ensino médio obtido pelo Encceja permite comprovar a escolaridade exigida para ingressar em cursos superiores, desde que o interessado também cumpra os requisitos do processo seletivo da instituição.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Encceja é destinado a pessoas que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade apropriada.

Para obter a certificação do ensino médio, é necessário ter pelo menos 18 anos completos na data do exame. A participação é gratuita, observadas as regras de cada edição, inclusive as relativas à justificativa de ausência anterior.

O participante precisa alcançar a pontuação mínima de 100 pontos em cada área do conhecimento e nota igual ou superior a 5 na redação. Quando consegue aprovação apenas em determinadas áreas, pode solicitar uma declaração parcial de proficiência e completar posteriormente os requisitos restantes.

Segundo as orientações oficiais do Inep sobre o Encceja, a emissão dos certificados cabe às secretarias estaduais de Educação e aos institutos federais que aderem ao exame.

Como continuar os estudos depois da certificação?

Quem deseja seguir um caminho semelhante ao de Nadijane pode organizar as próximas etapas da seguinte maneira:

  1. Concluir a certificação: obter as notas mínimas exigidas no Encceja e solicitar o certificado à instituição certificadora escolhida na inscrição.
  2. Escolher uma graduação: pesquisar cursos superiores, instituições de ensino e modalidades compatíveis com os objetivos profissionais e a rotina pessoal.
  3. Participar da seleção: verificar os critérios de ingresso estabelecidos pela faculdade ou universidade, como vestibular ou utilização de resultados do Enem, quando aceitos.
  4. Pesquisar bolsas e descontos: consultar programas disponíveis, observando os requisitos de participação, os valores não cobertos e as condições para manutenção do benefício.

A orientação do Ministério da Educação sobre o ingresso no ensino superior esclarece que a matrícula em cursos de graduação exige a conclusão do ensino médio e a classificação em processo seletivo, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Vale destacar que a bolsa de 80% conquistada por Nadijane foi uma condição específica de seu ingresso na Unifacs. A certificação pelo Encceja, por si só, não garante descontos ou bolsas de estudo.

Uma nova etapa para quem passou décadas adiando os próprios sonhos

Em 2026, Nadijane começou a viver uma experiência que, durante muitos anos, parecia distante de sua rotina. Passou a frequentar aulas universitárias, conviver com novos colegas e estudar formalmente os assuntos jurídicos que já faziam parte de sua vida.

Aos 58 anos, ainda tem objetivos acadêmicos e profissionais a perseguir. O próximo passo será construir essa trajetória ao longo da graduação, respeitando suas condições pessoais e os desafios da formação.

Entre a certificação pelo Encceja, em 2018, e a entrada na faculdade, em 2026, transcorreram oito anos. A história de Nadijane evidencia como a conclusão da educação básica na vida adulta pode se tornar o ponto de partida para novos projetos, inclusive o ingresso no ensino superior depois dos 50 anos.

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