Patrícia Alves Machado passou quase três décadas longe da escola e encontrou no trabalho como auxiliar de serviços gerais de uma universidade o incentivo que precisava para voltar a estudar

Ela trabalhava na limpeza de uma universidade, voltou a estudar após 30 anos e hoje cursa Pedagogia aos 44

Patrícia Alves Machado passou quase três décadas longe da escola e encontrou no trabalho como auxiliar de serviços gerais de uma universidade o incentivo que precisava para voltar a estudar. Aos 44 anos, ela é estudante de Pedagogia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), depois de concluir o ensino fundamental e o ensino médio por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

A história começou a mudar em 2019, quando Patrícia passou a trabalhar na limpeza da UENF, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. O contato com universitários, colegas e projetos educacionais abriu um caminho que ela havia tentado percorrer outras vezes, sem conseguir chegar ao final.

Agora, a mulher que deixou os estudos aos 13 anos tem uma nova meta: conquistar o diploma de pedagoga antes de completar 50 anos. Sua trajetória foi apresentada em uma reportagem publicada pela Universidade Estadual do Norte Fluminense em 21 de agosto de 2026.

Patrícia deixou a escola aos 13 anos e tentou voltar a estudar diversas vezes

A relação de Patrícia com a educação foi interrompida ainda na adolescência. Ela havia concluído a antiga quinta série, correspondente ao atual sexto ano do ensino fundamental, quando abandonou os estudos por falta de incentivo familiar.

O desejo de voltar à escola permaneceu, mas as responsabilidades da vida adulta dificultaram seus planos.

Aos 22 anos, quando seu primeiro filho tinha apenas três anos, Patrícia tentou retomar as aulas. A experiência durou somente três dias. Sua mãe enfrentava problemas de saúde e não tinha condições de cuidar da criança enquanto ela estudava.

Quatro anos depois, realizou uma nova matrícula e chegou a receber o material escolar. Entretanto, também não conseguiu dar continuidade à formação.

Essas tentativas mostram que a interrupção dos estudos não significava falta de interesse pela educação. Para Patrícia, as dificuldades estavam relacionadas às condições familiares e à necessidade de conciliar diferentes responsabilidades.

Uma conversa na universidade mudou seus planos em 2022

Depois de começar a trabalhar na UENF, Patrícia passou a conviver diariamente com pessoas que estavam construindo suas trajetórias acadêmicas.

Em 2022, durante uma conversa com um estudante da instituição, recebeu uma orientação que seria decisiva: procurar o Encceja, exame destinado a jovens e adultos que não concluíram a educação básica na idade regular.

Animada com a possibilidade, pediu ajuda a uma colega para realizar a inscrição. Naquele momento, porém, o prazo já havia terminado.

A colega acompanhou a abertura das inscrições do ano seguinte e conseguiu inscrevê-la na edição de 2023.

Patrícia Alves Machado passou quase três décadas longe da escola e encontrou no trabalho como auxiliar de serviços gerais de uma universidade o incentivo que precisava para voltar a estudar
Créditos: Clara Freitas – ASCOM / UENF

Patrícia realizou a prova em agosto daquele ano. Embora o resultado tenha sido divulgado em dezembro, ela demorou a consultá-lo, ainda insegura quanto ao próprio desempenho.

Somente em março de 2024, quando as atividades da universidade foram retomadas, recebeu a notícia da amiga: havia conseguido a aprovação necessária para concluir o ensino fundamental.

Era a primeira etapa de uma sequência de conquistas que mudaria sua relação com os estudos.

Após uma dificuldade no Encceja, projeto da UENF ajudou Patrícia a concluir o ensino médio

Com a primeira certificação conquistada, Patrícia decidiu enfrentar o próximo desafio: concluir o ensino médio.

Em 2024, participou novamente do Encceja, mas não alcançou a pontuação necessária em uma das áreas avaliadas. A aprovação completa precisaria esperar.

Foi nesse período que conheceu o projeto Ainda Dá Tempo, desenvolvido pela Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (ProAC) da UENF.

A iniciativa promove a elevação da escolaridade de colaboradores e trabalhadores terceirizados da universidade, oferecendo apoio educacional a pessoas que desejam retomar sua formação.

Como Patrícia já havia avançado nos estudos, professores voluntários prepararam conteúdos adaptados às suas necessidades, ajudando-a a se organizar para uma nova tentativa.

O resultado apareceu em 2025, quando conseguiu a aprovação necessária para finalizar o ensino médio.

Na reportagem da UENF, Patrícia resumiu a importância dessa experiência em uma declaração: “O projeto me deu base e me provou que ainda dá tempo.”

A conquista representou algo maior do que a obtenção de um certificado. Pela primeira vez desde a adolescência, ela havia concluído as etapas da educação básica e podia buscar uma oportunidade no ensino superior.

Da equipe de limpeza à graduação: aos 44 anos, Patrícia entrou em Pedagogia

Depois da conclusão do ensino médio, o próximo objetivo surgiu também por incentivo de uma amiga da universidade.

Patrícia conheceu o Consórcio Cederj, que oferece cursos superiores públicos na modalidade semipresencial em parceria com instituições de ensino do Rio de Janeiro.

Ela decidiu prestar o vestibular para Licenciatura em Pedagogia e conquistou a vaga na primeira tentativa.

Em agosto de 2026, quando a UENF divulgou sua história, Patrícia já estava matriculada no polo Cederj de São Francisco de Itabapoana, em um curso oferecido pela própria universidade.

A graduação em Pedagogia, conforme a Fundação Cecierj, tem duração prevista de oito semestres nas matrizes curriculares da UENF e prepara profissionais para diferentes áreas da educação, incluindo educação infantil, anos iniciais do ensino fundamental e educação de jovens e adultos.

Para Patrícia, entrar na faculdade também significou estabelecer novos objetivos profissionais e pessoais. Ela pretende terminar a graduação antes dos 50 anos e já considera continuar sua formação com uma especialização.

O aspecto mais marcante de sua trajetória está nessa mudança de perspectiva: o ambiente universitário que conheceu inicialmente pelo trabalho tornou-se também parte de sua formação acadêmica.

Como o Encceja permite que adultos voltem a estudar e cheguem à faculdade?

A experiência de Patrícia também ajuda a compreender uma possibilidade disponível para brasileiros que interromperam os estudos: utilizar o Encceja para conquistar a certificação escolar e, posteriormente, disputar vagas no ensino superior.

O exame é organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e permite avaliar conhecimentos adquiridos tanto na escola quanto em outras experiências de aprendizagem.

Segundo as orientações oficiais do Inep sobre o Encceja, os principais requisitos de idade são:

  • Ensino fundamental: ter pelo menos 15 anos completos na data da prova.
  • Ensino médio: ter pelo menos 18 anos completos na data da prova.

Quem já tem 18 anos pode buscar diretamente a certificação do ensino médio, mesmo sem possuir o certificado de conclusão do ensino fundamental.

Para obter a habilitação, o participante precisa alcançar pelo menos 100 pontos em cada área de conhecimento e nota igual ou superior a 5 na redação.

Quem consegue a pontuação exigida em apenas algumas áreas pode solicitar a declaração parcial de proficiência, conforme as regras aplicáveis. Isso permite aproveitar resultados já conquistados e buscar a aprovação nas áreas restantes.

É importante compreender que o Encceja não funciona como vestibular. A certificação do ensino médio comprova a conclusão dessa etapa da educação básica, enquanto o ingresso na faculdade depende das regras de seleção da instituição escolhida.

Foi exatamente esse percurso que Patrícia realizou: concluiu o ensino fundamental, obteve a certificação do ensino médio e, depois, conquistou uma vaga no processo seletivo do Cederj.

A história de Patrícia também incentivou outra trabalhadora a continuar estudando

O retorno de Patrícia aos estudos acabou influenciando pessoas que conviviam com ela na universidade.

Uma delas foi Maria Betânia dos Santos Silva Ramos, também auxiliar de serviços gerais da UENF.

Betânia havia interrompido os estudos aos 20 anos para priorizar a criação e a educação dos dois filhos. Durante muitos anos, deixou em segundo plano o desejo de trabalhar na área da saúde.

Com o incentivo de Patrícia, participou das aulas do projeto Ainda Dá Tempo. As duas realizaram o Encceja e conseguiram concluir o ensino médio em 2025.

Aos 56 anos, Betânia também iniciou uma nova etapa educacional. Com ajuda da filha, inscreveu-se em um curso técnico de Análises Clínicas da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), foi selecionada e começou a estudar na área de que gostava.

Assim, a experiência que começou com o incentivo de um estudante universitário a Patrícia alcançou outra trabalhadora, que também conseguiu dar continuidade à própria formação.

Uma nova história construída dentro da universidade

Quando Patrícia começou a trabalhar na UENF, em 2019, ainda precisava concluir duas etapas da educação básica. Sete anos depois, a realidade apresentada pela instituição era diferente: aos 44 anos, ela cursava uma graduação e fazia planos para uma especialização.

Sua história reúne elementos que ajudam a explicar a importância do acesso à educação de jovens e adultos: oportunidades de certificação, orientação de pessoas próximas e projetos de apoio à aprendizagem.

A trajetória também mostra como instituições educacionais podem contribuir para a formação de pessoas que já integram seu ambiente de trabalho.

O próximo objetivo de Patrícia está definido. Ela deseja receber o diploma de pedagoga antes de completar 50 anos, encerrando uma etapa que começou quando ainda trabalhava para recuperar os anos de escolaridade interrompidos na adolescência.

Você conhece histórias de superação como a da Patrícia através da educação? Compartilhe conosco nos comentários.

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