Maria Valéria Rezende venceu a categoria Conto do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026 com Recapitulações.

Da estreia aos 59 anos a uma carreira premiada: Maria Valéria Rezende conquista novo reconhecimento

Educadora popular e escritora desde a infância, a autora de Recapitulações construiu uma trajetória literária que aproxima leitura, experiência de vida e criação.

Maria Valéria Rezende venceu a categoria Conto do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026 com Recapitulações. A conquista acrescenta um novo reconhecimento à trajetória de uma autora que publicou seu primeiro livro aos 59 anos, depois de décadas de contato com a escrita.

O resultado foi divulgado em 20 de outubro. Na categoria, que recebe o nome de Prêmio Clarice Lispector, a obra publicada pela Editora 34 ficou em primeiro lugar. A premiação contempla 13 categorias nesta edição, conforme o comunicado do Ministério da Cultura.

Para mulheres que desejam escrever e ainda guardam projetos inéditos, sua história oferece uma perspectiva concreta: a chegada do primeiro livro pode acontecer depois de uma longa formação como leitora, observadora e autora de textos que antecedem a publicação.

A escrita começou muito antes do primeiro livro

Maria Valéria escreve desde criança. A informação aparece na apresentação de sua entrevista ao programa Pensamento Jurídico, divulgada pela Amagis em julho de 2026, que também registra a estreia editorial aos 59 anos. Seu primeiro livro literário, Vasto mundo, foi publicado em 2001.

Essa diferença entre escrever e publicar ajuda a compreender sua trajetória. O lançamento coloca a obra em circulação, permite que ela encontre leitores e passa a integrar a bibliografia da autora. A relação com as palavras, porém, pode ter começado muito antes.

No caso de Maria Valéria, a infância já fazia parte dessa história. Por isso, a idade da estreia ganha um significado mais interessante quando acompanhada desse contexto: havia uma experiência anterior de escrita, somada ao percurso de vida de uma educadora.

Para quem mantém cadernos, relatos ou histórias em arquivos pessoais, a distinção é útil. Organizar um projeto de livro constitui uma etapa específica, com escolhas de estrutura, revisão e preparação do texto para outras pessoas.

Uma educadora popular que levou a experiência para a literatura

Nascida em Santos, em 1942, Maria Valéria se estabeleceu na Paraíba na década de 1970. Formada em Letras e Sociologia, é religiosa da Congregação de Nossa Senhora — Cônegas de Santo Agostinho e construiu uma trajetória ligada à educação popular e aos movimentos sociais.

Sua atuação como educadora passou por diferentes regiões do Brasil e por outros países. Esse percurso amplia o contexto de uma produção literária interessada nas experiências humanas e nas formas de contar histórias.

Maria Valéria Rezende venceu a categoria Conto do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026 com Recapitulações
Imagem: Reprodução / Redes Sociais

A aproximação entre educação e literatura também aparece na recepção de seus livros. Em abril de 2025, estudantes da Escola Cidadã Integral Técnica Bráulio Maia Júnior, em Campina Grande, trabalharam com Vasto mundo em um clube de leitura. A partir dos contos, produziram poemas, novas capas e elementos para uma homenagem à escritora.

O episódio oferece um exemplo de leitura que se desdobra em criação. Depois de conhecer uma obra, os alunos experimentaram outras linguagens para expressar o que haviam percebido nela.

O que o livro Recapitulações propõe ao leitor

Recapitulações apresenta doze narrativas curtas, em um volume de 88 páginas, com posfácio de Roberto Zular. A proposta envolve o diálogo com obras de escritores como Machado de Assis, Franz Kafka e Guy de Maupassant.

A autora retoma histórias conhecidas e experimenta alterações de perspectiva, situações e desfechos. Entre as personagens revisitadas está Capitu, de Dom Casmurro, que ganha espaço para apresentar sua versão dos acontecimentos.

Esse procedimento pode ser compreendido pela ideia de intertextualidade: a relação que um texto estabelece com outro. Uma personagem, uma situação ou uma forma de narrar reaparece em uma nova construção, produzindo sentidos diferentes.

Para o leitor, a proposta abre duas possibilidades de descoberta. Quem conhece as referências pode perceber as mudanças e conversar mentalmente com o texto anterior. Quem encontra essas histórias pela primeira vez pode sentir vontade de procurar as obras que deram origem ao diálogo.

O reconhecimento também passou pelo Jabuti

A vitória de 2026 integra uma trajetória com premiações em diferentes gêneros. Maria Valéria recebeu o Jabuti por No risco do caracol, na categoria infantil, em 2009, e por Ouro dentro da cabeça, na juvenil, em 2013.

Em 2015, Quarenta dias venceu nas categorias Romance e Livro do Ano de Ficção. Já Outros cantos recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2017. A sequência mostra a continuidade do trabalho desenvolvido depois da estreia editorial.

Uma leitura para quem também deseja escrever

A trajetória de Maria Valéria convida a olhar com atenção para o repertório acumulado: livros lidos, conversas, lugares e experiências podem oferecer matéria para a criação.

Um exercício possível é escolher uma lembrança e escrevê-la como cena, com espaço, ação e personagens. Depois, revisar o texto perguntando o que o leitor consegue compreender sem conhecer sua história pessoal.

Qual história você gostaria de transformar em seu primeiro livro?

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