Entre o cortiço e a escola, Martha constrói seu futuro. Entenda como educação, trabalho materno e expectativas sobre o casamento atravessam o romance.
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, acompanha uma menina que cresce em um cortiço do Rio de Janeiro e encontra nos estudos um caminho para se tornar professora. Narrada pela própria protagonista adulta, a história relaciona sua formação às dificuldades da mãe, às humilhações da pobreza e às expectativas sociais sobre as mulheres.
O romance também aparece como Memórias de Marta, com o nome atualizado. Para compreender a obra, é importante acompanhar tanto os acontecimentos quanto a maneira como a narradora revê suas escolhas, seus preconceitos e suas perdas.
Atenção: o resumo apresenta o desfecho do livro.
Memórias de Martha ou Memórias de Marta: qual é a grafia?
As duas formas identificam o romance de Júlia Lopes de Almeida. Neste artigo, adotamos Martha, conforme a edição de 1899 da Casa Durski, disponível na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP. Nela, o título aparece como Memorias de Martha (Narrativa).
A edição da Penguin-Companhia utiliza Memórias de Marta. A diferença de grafia não indica outra protagonista ou outro romance. Ao fazer citações, mantenha a forma e a paginação da edição utilizada, pois o texto teve diferentes versões editoriais.
Memórias de Martha: resumo do enredo
A morte do pai e a vida no cortiço
Martha começa suas recordações com imagens fragmentadas da primeira infância, entre elas a morte do pai. Depois dessa perda, ela e a mãe, também chamada Martha, passam a viver em um cortiço de São Cristóvão. A mãe sustenta as duas engomando roupas para clientes.
Mais adiante, a protagonista conhece a história que antecedeu a ruína familiar. Segundo o relato materno, o pai foi roubado enquanto transportava dinheiro dos patrões. Acusado de desonestidade e temendo a prisão, morreu por suicídio. A suspeita sobre ele deixa uma marca de vergonha social que acompanha a família.
No cortiço, Martha convive com fome, violência e insegurança. Carolina, filha de uma vizinha conhecida como ilhoa, demonstra solidariedade ao dividir comida com ela e acaba castigada pela mãe. Maneco, irmão de Carolina, é uma criança exposta ao consumo de álcool e morre ainda menino. O assassinato do trabalhador Túlio por Giovanni também impressiona profundamente a protagonista.
A escola e as primeiras contradições de Martha
A entrada na escola amplia as possibilidades da menina. Ela aprende a ler, avança nos estudos e passa a imaginar um futuro diferente do trabalho exaustivo da mãe.
Essa experiência também revela contradições. Mathilde, uma colega que a ajuda nas primeiras lições, é acusada de furtos, humilhada e finalmente expulsa. Martha acompanha o afastamento das outras alunas e abandona a colega. Ao recordar o episódio, a narradora adulta reconhece sua ingratidão.
A comparação com meninas mais favorecidas alimenta seu sentimento de inferioridade. Na casa de uma cliente da mãe, Lucinda exibe roupas e brinquedos e zomba dela. Martha sofre com a humilhação, mas depois reproduz uma atitude de superioridade diante das crianças do cortiço. O livro acompanha esse aprendizado doloroso das hierarquias sociais.
O projeto de ser professora e a paixão por Luiz
Com o incentivo da professora Aninha, chamada também de Annita no texto consultado, Martha se dedica à carreira do magistério. Estudo, trabalho e preocupação com a saúde da mãe marcam sua juventude.
Durante uma temporada em Palmeiras, na companhia da professora, conhece Luiz, primo da mestra e estudante de medicina. Os passeios, as conversas e os versos do rapaz despertam nela a expectativa de um amor correspondido.
A ilusão se rompe quando Martha o vê em intimidade amorosa com uma jovem norte-americana. Mais tarde, descobre que Luiz vai se casar com Leonor, sobrinha da professora. A decepção intensifica seu sofrimento e abala o futuro afetivo que havia imaginado.
A nomeação, o casamento e a morte da mãe
Martha retoma os estudos e obtém aprovação no concurso para professora pública. Recebe a nomeação no dia do casamento de Luiz. A coincidência aproxima a conquista profissional da lembrança de sua frustração amorosa.
Nesse período, Miranda, antigo cliente da mãe, pede sua mão. Ele havia se interessado por Martha ao ler as cartas que ela enviava de Palmeiras. A primeira reação da jovem é recusar: agora que conquistou uma posição independente, entende que pode sustentar a própria vida.
Depois de hesitar, aceita o casamento. A decisão envolve a preocupação materna com seu futuro, o temor da solidão e as feridas deixadas por suas experiências anteriores. Martha assume a cadeira de professora no Engenho Novo e se casa com Miranda.
A convivência conjugal começa de maneira serena. Pouco depois, porém, a mãe adoece gravemente. O médico identifica uma antiga lesão no coração. Ela morre, e o romance termina com Martha de joelhos ao lado do corpo materno. A estabilidade alcançada pela filha não lhe permite realizar o desejo de oferecer à mãe uma longa vida de descanso.
Os acontecimentos podem ser conferidos no texto integral da edição de 1899, em domínio público.
Personagens de Memórias de Martha e suas funções
| Personagem | Participação e importância |
|---|---|
| Martha, a filha | Protagonista e narradora. Reconstrói sua formação, da infância pobre à conquista de uma profissão e ao casamento. |
| Martha, a mãe | Viúva e engomadeira. Sustenta a filha e participa decisivamente de sua formação. Seu desgaste físico dá dimensão ao custo dessa trajetória. |
| Aninha ou Annita | Professora que acompanha os estudos de Martha e favorece seu ingresso no magistério. Sua proteção convive com diferenças de posição social. |
| Mathilde | Colega que ajuda Martha a aprender. Seu abandono se torna uma lembrança de culpa para a narradora adulta. |
| Clara Sylvestre | Amiga da escola, generosa com Martha. O reencontro das duas na juventude expõe julgamentos sobre aparência, respeitabilidade e condição feminina. |
| Lucinda | Filha de uma cliente da mãe. A comparação com suas roupas e brinquedos marca a consciência de desigualdade da protagonista. |
| Carolina | Menina do cortiço que oferece comida a Martha. Sua trajetória reúne solidariedade, trabalho e violência familiar e conjugal. |
| A ilhoa e Maneco | A vizinha e seu filho integram o cotidiano do cortiço. A brutalidade doméstica e o adoecimento do menino expõem a vulnerabilidade das crianças. |
| Luiz e Leonor | Ele desperta a paixão de Martha; ela se torna sua esposa. A relação participa da desilusão afetiva da protagonista. |
| Miranda | Solicitador, cliente da mãe e futuro marido de Martha. Oferece uma relação de cuidado e estabilidade, aceita após hesitação. |
| Túlio e Giovanni | Moradores do cortiço. O assassinato de Túlio por Giovanni provoca medo persistente em Martha. |
Algumas edições atualizam nomes como Mathilde, Sylvestre e Luiz para Matilde, Silvestre e Luís. Aqui, essas grafias seguem o texto de 1899 consultado.
Quem narra a história e como a memória organiza o romance?
A narradora é Martha adulta, que conta a própria trajetória em primeira pessoa. Ela participa dos acontecimentos e os reavalia a partir de um momento posterior. Por isso, a experiência da criança e o julgamento da mulher madura aparecem entrelaçados.
O episódio de Mathilde evidencia essa diferença: quando menina, Martha acompanha a exclusão da colega; ao narrar, reconhece a dívida afetiva e moral que deixou sem resposta. O amadurecimento surge na capacidade de perceber falhas próprias.
O enredo avança principalmente da infância para a juventude e a vida adulta, mas inclui recuos, explicações e comentários. A história dos pais, por exemplo, é conhecida depois das primeiras lembranças da morte paterna. A memória escolhe acontecimentos e lhes atribui importância.
O formato memorialista pertence à ficção: Júlia Lopes de Almeida é a autora; Martha é a personagem que narra. Essa distinção orienta a leitura dos sentimentos, das avaliações e dos preconceitos presentes na voz narrativa.
A formação de Martha: educação, vergonha e reconhecimento
A obra pode ser lida como um romance de formação, pois acompanha a construção intelectual, afetiva e social da protagonista. A aprendizagem escolar se articula à maneira como ela passa a enxergar a si mesma e às outras pessoas.
As roupas permitem observar esse processo. O vestido recebido da família de Lucinda provoca humilhação quando Martha é ridicularizada; depois, permite que ela se apresente à escola e se sinta superior às crianças da vizinhança. O mesmo objeto reúne necessidade material, acesso à educação e desejo de distinção.
Martha absorve valores que a ferem. Mede sua aparência pelos padrões das moças mais favorecidas, sente vergonha da pobreza e imagina que ser amada confirmaria seu valor. Sua formação inclui o confronto com essas expectativas.
A conquista do magistério, por sua vez, resulta de esforço e de condições concretas: trabalho materno, acesso à escola e apoio da professora. Essa rede ajuda a compreender por que o êxito de Martha não pode ser explicado apenas por vontade individual.
Contexto social: trabalho feminino, cortiço e casamento
A trajetória da obra começa em folhetim, em 1888, e chega ao livro em 1899. O exemplar da Casa Durski é preservado pela USP. Uma análise publicada pelo Jornal da USP destaca as relações entre desigualdade, condição feminina, educação e trabalho no romance.
O cortiço reúne trabalhadores, imigrantes, crianças e pessoas empobrecidas. As condições de moradia interferem no descanso, na saúde, na privacidade e na sensação de segurança de Martha. A história individual permite observar uma organização social mais ampla.
A mãe exerce trabalho remunerado durante toda a criação da filha, com esforço físico intenso e pouca proteção. Martha alcança outra posição ao tornar-se professora. O contraste dá visibilidade a diferentes experiências de trabalho feminino.
Já o casamento revela limites da autonomia conquistada. Mesmo com renda própria, Martha enfrenta a expectativa de que uma mulher precisa de um marido para estar protegida e ser socialmente respeitada. Sua hesitação diante de Miranda concentra essa tensão entre independência, desejo afetivo e convenções.
A leitura também exige atenção à linguagem racializada e aos julgamentos dirigidos a personagens pobres. São marcas históricas da representação e da voz narrativa, que podem ser analisadas criticamente junto às demonstrações de solidariedade e às situações de exclusão.
Como interpretar o final de Memórias de Martha?
O desfecho aproxima uma conquista de uma perda irreparável. Martha obtém trabalho e estabilidade, mas a mãe morre antes de usufruir o descanso que a filha desejava proporcionar.
Essa construção permite interpretar o romance como uma memória de formação atravessada por uma homenagem materna. A história da professora é inseparável do trabalho da engomadeira que tornou sua educação possível.
O casamento com Miranda também conserva uma ambivalência: há cuidado e serenidade na relação, embora a escolha tenha sido precedida por resistência, ressentimento e frustração amorosa. A solução prática para a vida de Martha convive com desejos que permaneceram sem realização.
Ao estudar o livro, acompanhe o que muda entre viver um episódio e recordá-lo. Nas cenas de Mathilde, do vestido e da morte materna, essa distância mostra como Martha constrói uma compreensão mais dolorosa de sua própria história.
Professora formada em Letras – Português/Inglês pela UEPG, pós-graduada em Psicopedagogia Escolar e Arte na Educação pela FAPI e em Educação Especial pela Facuminas. Atua com produção de conteúdo, revisão, redação SEO e escrita para web desde 2018.





